sábado, 28 de janeiro de 2012

Gestalt-Terapia de Grupo e Jogo de Areia


Atualmente um dos grandes desafios que nossa sociedade enfrenta é a solidão derivada do profundo individualismo vivido de forma cada vez mais evidente. Da mesma forma vivenciamos, na prática clínica, uma certa hegemonia da psicoterapia individual.

Ao longo principalmente das décadas de 50 e 60 do século XX, houve um "boom" da terapia de grupo de diferentes perspectivas, tais como o Teatro da Espontaneidade e a terapia de grupo psicodramática, do Jacob Moreno, os Grupos de Encontro desenvolvidos pelo Carl Rogers e os grupos gestálticos realizados nos workshops do Fritz Perls, só para citar as propostas existentes no movimento da Psicologia Humanista.

Pensando nos termos da psicoterapia de grupo desenvolvida na abordagem gestáltica, percebemos algumas configurações bem próprias do estilo Fritz Perls, com a presença de um terapeuta que trabalha cada participante individualmente no grupo. Esse é o modelo clássico de trabalho grupal na abordagem gestaltica, em que o terapeuta atua como facilitador do processo individual ou como diretor da cena.

Quem vivencia a formação como gestalt-terapeuta, com experiência prática de grupo, no entato, percebe que não existe uma forma única de trabalhar grupos, sendo possível incluir trabalhos envolvendo corpo, dramatização, meditação e experimentos transpessoais com possibilidade de maior interação entre os membros do grupo, saindo de um formato clássico da tríade terpeuta-cliente-grupo, em que este último ocupa o lugar de platéia passiva ou coadjuvante na cena.

Considerando as influências teóricas do pensamento de campo de Kurt Lewin, é importantíssimo compreender um grupo como um campo relacional, e que cada membro do grupo atua, modifica e é modificado pelas interações intersubjetivas que se dão na fronteira de contato eu-mundo. Desta forma, os papéis de terapeuta e cliente, e de cada um no grupo. é mutável e transsitório, e cada um - e todos é criador e criação, influencia e é influenciado pelas vivencias que se mostram e se aprofundam no contexto terapeutico de grupo.

Bem, e após falar tanto de grupo, onde entra o Jogo de Areia?

Embora desenvolvido inicialmente como uma técnica trabalhada individualmente, em que o terapeuta é um observador silencioso e paciente. o jogo de areia pode ser utilizado no contexto grupal, seja com a possibilidade de construção coletiva de um cenário, seja na construção de cenários individual em contexto de grupo, podendo, inclusive, haver interação ativa do terapeuta/facilitador.

Na segunda possibilidade, da construção individual em grupo, a possibilidade mais comum é de que se trabalhe no modo clássico da "terapia individual em grupo". No entanto, mesmo nesse formato, o relato de experiência de um pode tocar - e geralmente toca - a experiênca do outro.

Já na construção coletiva de um cenário o trabalho se mostra muito mais rico, pois abre para o espaço imprevisível da criação. Cada um entra na cena com seus elementos subjetivos, que vai desde a escolha das miniaturas, seu arranjo e o uso do espaço da caixa, sendo possível trabalhar tanto as construções dentro das fronteiras individuais, quanto a interação entre fronteiras de contato.

Um outro recurso interessantíssimo presete na construção coletiva do cenário, é a possibilidade de construção coletiva de narrativas, de histórias, a partir da interações dos elementos trazidos por cada um no grupo. Na construção das histórias elementos da personalidade de cada um se manifestam e interagem com a diversidade de subjetividades, gerando conflitos, impasses e interações que precisam ser dirigidas, pelo terapeuta, no sentido de um fechamento em que todos tenham seus elementos subjetivos percebido, assimilados e integrados.

Esse trabalho pode ser feito em sistemas de casais, em sistemas familiares, no contexto organizacional no treinamento de equipes e nos diversos contextos sociocomunitários, podendo também pode ser um forte instrumento utilizado no treinamento de formação do terapeuta de jogo de areia e em supervisão de grupo.

É difícil sintetizar em poucas linhas a riqueza do trabalho em grupo envolvendo jogo de areia, mas fica o convite à experimentação.


Luiz Fernando Calaça
Psicólogo / Gestalt-Terapeuta

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